Bonhoeffer: A Fé que desafiou a Igreja

Dietrich Bonhoeffer foi um pastor luterano, que viveu na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Ele passou por um questionamento muito sério quando sua Igreja não se opôs ao nazismo. Para ele, a passividade das religiões cristãs diante do que estava acontecendo na Europa na década de 30, levaria a uma inevitável conivência com o mal.

A relevância histórica e espiritual de Dietrich Bonhoeffer foi tamanha que sua vida e pensamento ultrapassaram os limites da teologia e chegaram ao cinema. Sua trajetória de fé, coragem e resistência inspirou produções como Bonhoeffer – Die letzte Stufe (2000), também conhecido como Bonhoeffer: Agente de Graça, e o recente Bonhoeffer: Pastor. Spy. Assassin. (2024), ambos retratando sua luta contra o regime nazista e sua fidelidade a Cristo até a morte. Essas obras revelam como sua figura se tornou símbolo universal da consciência cristã diante da tirania, mostrando que a verdadeira fé não se curva ao poder, mas se mantém firme na defesa da dignidade humana e da verdade. https://www.primevideo.com/-/pt/detail/A-Reden%C3%A7%C3%A3o-A-Hist%C3%B3ria-Real-de-Bonhoeffer/0HSZXLBEXHYXS8YZL03V800I3Q

Bonhoeffer, diferentemente de outros religiosos de sua época, nunca assumiu qualquer tolerância com o regime proposto por Adolf Hitler. Isso fez com que, num primeiro momento, se manifestasse abertamente contra o regime e, depois, contra a própria religião institucional, que buscava preservar laços com o poder político para continuar existindo e não ser ameaçada. Afinal, tudo e todos que se colocavam contra o regime eram duramente punidos.

Por maior que fosse seu apego à instituição eclesiástica, Bonhoeffer compreendia que o amor cristão é o reconhecimento da autonomia e do valor do outro como criação divina. Ele Lembrava que Jesus Cristo nasceu como um judeu neste mundo, e um cristão não pode perseguir um judeu. A Igreja como uma comunidade de irmãos que pregava o Cristo da Cruz, o colocava inevitavelmente em contradição com o regime totalitário que se consolidava na Alemanha nazista.

O afastamento de Bonhoeffer da Igreja institucional foi inevitável. As posições assumidas por grande parte das lideranças eclesiásticas tornaram-se cada vez mais indefensáveis. Havia um silêncio comprometedor da igreja. Bonhoeffer, sem alternativas além da passividade sugerida pelos clérigos, buscou resgatar que o conceito de Igreja vai além de uma instituição. O escritor alemão se opunha a censura da reflexão religiosa em benefício da hierarquia eclesiástica, ou do poder político. A Igreja deveria ser uma comunidade unida pelo amor cristão, permitindo o desenvolvimento espiritual e a comunhão entre seus membros, sem privilegiar um corpo eclesiástico.

Bonhoeffer via no ser humano um ser no mundo, e isso revelava, em primeiro lugar, que o homem não está sozinho, mas rodeado de pessoas com visões diferentes das suas. No entanto, o homem moderno transformou Deus em um objeto religioso. O Ser Superior foi transformado em uma criação humana, propriedade e projeção de si mesmo. Essa dicotomia entre criatura e Criador levava, segundo Bonhoeffer, ao niilismo moderno que só aumenta as fileiras do secularismo.

Para Bonhoeffer, Jesus Cristo sempre foi, ao mesmo tempo, plenamente divino e plenamente humano, jamais reduzido a um simples projeto ético ou religioso. Cristo não se situava nas fronteiras da existência, mas no seu próprio centro. O equívoco fundamental da teologia liberal, com a qual Bonhoeffer dialogava, mas da qual também se distanciava, estava em pressupor que a figura de Jesus dependesse de uma comprovação histórica. Para o teólogo, a fé cristã não poderia fundamentar-se na reconstrução histórica da vida de Jesus de Nazaré, mas basear-se apenas na fé.

Ele afirmava que Cristo não é o portador de uma nova religião, mas o portador do mesmo Deus. Com o passar do tempo, Bonhoeffer adotou uma postura cada vez mais crítica em relação à Igreja institucional, decepcionado com seu apoio ao nazismo. Para ele, o corpo de Cristo não se reduz a um grupo de fiéis que frequentam cultos e participam de sacramentos: sua manifestação se estende a todos aqueles que seguem Jesus no mundo, participando de seu sofrimento e se solidarizando com os perseguidos e oprimidos.

Em 1933, Hitler ascende ao cargo de chanceler. Inicia-se, então, o boicote aos negócios judeus, a perseguição política e a supressão de liberdades civis. Diante desse cenário, e da adaptação da igreja na Alemanha, Bonhoeffer declarou: “O caminho da Igreja se apresenta tão obscuro como poucas vezes antes”. Em carta, antevendo o que aconteceria, afirmou: “Está cada vez mais claro para mim que uma Igreja nacional de caráter racista nos aguarda. Ela não suportará o cristianismo em sua essência. Teremos que trilhar caminhos completamente novos diante da realidade que inevitavelmente se apresentará.”

Para fugir do regime opressor, Bonhoeffer foi nomeado diretor de um seminário clandestino no interior da Alemanha, responsável por formar pastores da Igreja Confessante, em resistência às posições nazistas. Nessa época, ele escreveu uma série de estudos sobre o Sermão do Monte, o que levou a um enfoque mais cristocêntrico de sua obra.

O que mais o entristecia era o ocultamento da realidade pela Igreja, que fechava os olhos e tornava-se conivente com políticas estatais contrárias aos princípios cristãos. Em determinado momento, Bonhoeffer confessou estar convencido de que o cristianismo, tal como interpretado no Ocidente, havia se esvaziado de sentido. Bonhoeffer via o ódio e a maldade do mundo como tentações que podiam afastar o cristão do verdadeiro amor.

Sua obra pode ser considerada uma reflexão teológica marcada por uma crise ética e espiritual, fortemente centrada na cristologia. A teologia de Bonhoeffer se desenvolve em oposição ao discurso e à prática do nazismo, mesmo quando a igreja consentia, e por isso tornou-se referência nas discussões sobre o chamado “cristianismo a-religioso”. Bonhoeffer nunca abandonou a Cristo, mas quanto mais ele se aproximava do autor do cristianismo, mais se afastava da igreja que se tornava passiva e, até certo ponto, conivente.

Bonhoeffer antecipou reflexões sobre a relação entre fé, secularização e presença de Deus no mundo. Para ele, a religião institucional, voltada à autopreservação, havia perdido sua vitalidade espiritual. O cristianismo a-religioso não negava a existência de Deus, mas questionava as estruturas eclesiásticas que, em nome de Deus, o haviam afastado do mundo.

Bonhoeffer propôs uma interpretação “não religiosa” dos conceitos bíblicos, voltada a compreender o cristianismo em uma sociedade secularizada. Essa interpretação não buscava abolir a fé nem a Igreja, mas reconduzi-las ao seu sentido original — o testemunho de Cristo no mundo real e humano. Ele afirmava que a religião, em sua forma institucionalizada, tornara-se uma tentativa humana de preservar um espaço para Deus em um mundo que o havia abandonado. Contudo, assim como a circuncisão se tornara supérflua após a revelação de Cristo, a religião formal também se tornara desnecessária para a justificação do ser humano diante de Deus.

Para Bonhoeffer, a Igreja deveria se manifestar concretamente no mundo a-religioso, não por meio de dogmas ou ritos, mas através da vivência do amor e do serviço. A interpretação não religiosa da fé cristã buscava traduzir a mensagem bíblica em uma linguagem compreensível ao homem moderno, despida de excessos metafísicos e formalismos institucionais.

Em 1939, Bonhoeffer tomou uma decisão radical: ingressou no serviço de contraespionagem alemão, participando da resistência política ao nazismo. Esse passo determinou o rumo de sua teologia, passando a defender explicitamente a luta da Igreja contra o regime totalitário. O escritor opôs-se à teologia que priorizava o sucesso mundano em detrimento da mensagem da cruz e do sofrimento redentor de Cristo.

Bonhoeffer acaba preso diante da tentativa frustrada de eliminar Hitler. Em suas cartas da prisão, afirma que falar de Deus às pessoas exige reconhecê-las em sua força, liberdade e humanidade — e não reduzi-las à fraqueza e à miséria. Caso contrário, Deus torna-se um “Deus-tapa-buracos”, usado apenas para preencher as lacunas da vida. Para ele, a única forma de crer em um mundo que expulsou Deus é participar do sofrimento de Deus no e pelo mundo, conforme revelado em Cristo.

Sua teologia o levou a arriscar a própria vida, participando do plano de resistência que visava eliminar Hitler. Para Bonhoeffer, o verdadeiro cristão é aquele disposto a assumir a responsabilidade pelo próximo, mesmo que isso custe a própria existência.

A proposta de um cristianismo a-religioso, portanto, não implicava a negação da fé, mas a reconstrução da presença cristã no mundo secular. Bonhoeffer via com lucidez os perigos de uma religiosidade alienada, transformada em produto de consumo ou instrumento de poder. Denunciava a indiferença dos cristãos diante da injustiça e da crueldade humana. Para ele, Cristo é o “ser-para-os-outros”, e somente na solidariedade e no amor ao próximo é possível reencontrar o sentido do cristianismo.

A decisão de Bonhoeffer de participar do plano para eliminar Hitler levanta uma das questões mais inquietantes de toda a teologia cristã contemporânea: até que ponto a fé pode justificar a ação direta contra o mal? Seu pragmatismo, movido por um profundo senso de responsabilidade diante da injustiça, custou-lhe a vida de forma precoce. Morreu enforcado aos 39 anos por ordem direta de Hitler, poucos dias antes do final da Segunda Guerra.

Ainda assim, permanece a dúvida se Deus realmente esperava de Bonhoeffer tal reação ou se, ao agir com as próprias mãos, ele ultrapassou o limite da submissão à soberania divina. Seria a resistência ao mal uma expressão de obediência ou uma tentativa humana de assumir o papel do próprio Deus? Essa tensão ética, que atravessa sua biografia, revela o drama de um homem que compreendeu a graça não como passividade, mas como compromisso — mesmo quando isso significava desafiar os desígnios que, aos olhos da fé, pertencem somente a Deus.

Contudo, onde Bonhoeffer se mostrou mais efetivo foi em expor a contradição de uma Igreja que busca, antes de tudo, a própria autoexistência, ainda que isso comprometa a mensagem do próprio Cristo. Para ele, uma Igreja que se corrompe ao se aliar ao poder ou à conveniência institucional perde o direito de representar o Evangelho que proclama. Por essa razão, Bonhoeffer apregoa um cristianismo sem denominação, sem rótulo e sem dependência estrutural — um cristianismo que subsiste mesmo quando as igrejas falham, porque está enraizado não na instituição, mas na verdade viva de Cristo.

Desde os primeiros tempos, o cristianismo se organizou em torno de comunidades de fé. Assim como o judaísmo se reunia nas sinagogas, os cristãos também encontraram nas igrejas o espaço de comunhão, partilha e celebração da fé. Mas surge então uma pergunta inevitável: até que ponto o cristianismo não exige do crente certa submissão à instituição religiosa? Bonhoeffer refletiu sobre essa tensão. Embora defendesse a ideia de um cristianismo “a-religioso”, não negava o valor da comunidade. Seu alerta era outro: quando a Igreja deixa de ser instrumento e se torna um fim em si mesma, perde sua essência. A verdadeira Igreja, dizia ele, deve ser o sinal vivo da presença de Cristo no mundo — não o centro da fé, mas o lugar onde ela se torna visível em amor, serviço e verdade.

Quase um século após a obra de Bonhoeffer, a vida moderna tem conduzido o ser humano a novas realidades. O paradoxo é que, para muitos, se estabelece uma relação com Deus sem a intermediação de uma religião formal. Nesse sentido, surgem pessoas que não frequentam uma igreja, mas buscam viver sua fé cristã — e essa constatação, embora desconfortável para as tradições religiosas, reflete a busca de um relacionamento mais autêntico e pessoal com o divino.

No entanto, diante do cristianismo, permanece uma questão inevitável: até que ponto a Igreja é essencial e insubstituível? Por parte do clero, a resposta é previsível. Contudo, essa tensão entre a fé individual e a comunidade de crentes expressa o desafio contemporâneo de um cristianismo que busca permanecer fiel a Cristo sem se perder na própria institucionalização da fé. É inegável que a mensagem bíblica atravessou os séculos por meio da Igreja e de seus mensageiros. Mas vivemos agora uma realidade inescapável: todos os crentes, independentemente de instituições, são chamados a unir-se no combate ao secularismo e na vigilância constante da própria fé.

Bonhoeffer nos lembra que o maior perigo da Igreja é tornar-se uma instituição terrena e autocentrada, mais preocupada com sua manutenção do que com a missão. A bênção de Deus nunca é automática nem garantida: ela está ligada à fidelidade. Não se trata do fim da Igreja — mas de um chamado à vigilância. A história mostra que, quando a Igreja se desvia de seu propósito, como ocorreu em parte durante o nazismo, novas formas de fé e religiosidade inevitavelmente surgem.

Assim, a obra de Dietrich Bonhoeffer permanece como uma das mais profundas tentativas de reconciliar a fé cristã com o mundo moderno. A Igreja precisa ser, não uma fortaleza religiosa imersa na politica secular, ou focada em suas posses e poder, mas uma presença viva, comprometida com a humanidade e com a pregação do evangelho de Jesus Cristo.

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